Por volta das 18h30, perto do altar da Igreja Perpétuo Socorro, um coroinha virou para o outro e anunciou o primeiro gol do Brasil. “Foi do Vini Jr”, comemorou. Pouco depois, os fogos pipocaram no céu e o padre Rodrigo Agosto também comentou. “Alguém fez o gol”, disse.
Às 19h, o padre iniciou a missa, com cerca de 30 fiéis presentes. A presença reduzida era consequência do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. A Seleção enfrenta o Marrocos, em Nova Jersey (EUA).
“A gente entende perfeitamente que o brasileiro tem essa paixão pelo futebol”, disse o padre. Ele acredita que os fiéis encontram outros horários para celebrar a eucaristia. “Há muitos horários para que possam se adaptar”.
De maneira geral, o padre diz ter percebido a crescente presença de torcedores rezando pelo desempenho da Seleção Brasileira. “Também vou estar rezando e acendendo vela, pedindo para que a gente tenha uma boa Copa do Mundo e que o Brasil saia campeão”.
Entre os fiéis estava o casal Basílio Okuda e Elisa Okuda, que veio de Anastácio. O jogo ficou em segundo plano. “O padre abençoou nosso pão. Nós somos devotos de Santo Antônio, ficamos sabendo da programação e resolvemos ficar para a missa. Para a gente, não faz falta assistir ao jogo”, disse Basílio.
Elisa conta que o pão abençoado será guardado e levado aos filhos, que moram em São Paulo. A prática, segundo ela, já virou tradição na família. “Sempre fazemos isso. Eles já ficam esperando”, afirmou.
Na entrada da igreja, Edilaine Garcia recebia os fiéis. Ela trabalha na pastoral e diz que a noite era um teste de prioridade. “É um dia de escolhas: colocar Deus em primeiro lugar ou o jogo. Nós somos brasileiros e é óbvio que todo mundo quer acompanhar, mas é uma prioridade estar aqui fazendo parte dessa acolhida. Eu considero um privilégio”, disse.
A escolha também foi feita por Célia Ferreira, de 48 anos. Ela admite que o coração estava dividido, mas não a ponto de trocar a missa pela partida. “A missão é sempre o mais importante, apesar do coração estar lutando aqui, torcendo pelo Brasil. Mas a gente sabe da nossa missão, que é servir Jesus primeiro”, afirmou.
Célia diz que também reza pela Seleção. Brasileira, ela não nega a torcida, só reorganiza a ordem das coisas. “Meu coração é brasileiro sempre, mas prefiro priorizar a missa. Depois dá para ver alguns flashes do jogo”.
Sentado em uma das cadeiras da igreja desde antes das 18h, o sapateiro Marcos Aurélio Kraieski, de 60 anos, rezava o terço antes da celebração. Membro da comunidade, ele costuma frequentar a Igreja Cristo dos Povos, mas também vai à Perpétuo Socorro para rezar.
Marcos afirmou que só acompanharia o segundo tempo, depois da missa. Para ele, a ordem não muda nem em noite de Copa. “Primeiro lugar é ir à missa. Depois, o jogo. Primeiro Deus e depois o jogo”, disse.
A torcida, porém, estava garantida. “Lógico, Brasil. Se é para ganhar, vai ganhar. Estou confiante, acredito na Seleção. Acho que vai dar 2 a 0, 3 a 0, por aí”, apostou.
Ele chegou cedo também para pedir calma. Não apenas para si, mas para quem estava nas ruas em noite de jogo. “A gente sai por aí e tem motoqueiro que não respeita sinal. Tem que pedir por todo mundo”, disse.
