02/05/2026
Gazeta Alerta»Notícias»Brazil research blends Guarani, Kaiowa wisdom, challenges traditional teaching

Brazil research blends Guarani, Kaiowa wisdom, challenges traditional teaching

Pesquisa desenvolvida em parceria direta com comunidades indígenas de duas aldeias de Mato Grosso do Sul busca compreender como saberes ligados ao território, à oralidade e à espiritualidade podem dialogar com a educação formal. O estudo, intitulado “Territorialidade e processos próprios de aprendizagens: a cosmovisão no processo educativo guarani e kaiowá”, é coordenado pela professora Adir Casaro Nascimento, da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco).

Financiado pela FUNDECT (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul), o estudo parte de um princípio central: promover a construção de conhecimento com os povos indígenas. “Nada sobre eles. É com eles”, resume a professora.

A proposta reflete uma trajetória iniciada em 1987, quando Adir passou a atuar junto aos povos Guarani e Kaiowá por meio da pesquisa, da formação de professores indígenas e da formulação das escolas indígenas diferenciadas. Ao longo desse período, a pesquisadora acompanhou os impactos de um modelo educacional que, historicamente, desvalorizou os saberes tradicionais ao privilegiar uma visão de conhecimento baseada na ciência moderna europeia. “Há uma imposição de um regime de verdade que desconsidera as ciências indígenas, suas tecnologias e seus processos próprios de aprendizagem”, afirma.

Escuta e convivência

O estudo será desenvolvido até 2028 nas aldeias Taquapiri, em Coronel Sapucaia, e Porto Lindo, em Japorã, e contará com participação de indígenas Guarani Ñandeva e Guarani Kaiowá. Atualmente, a professora Adir orienta nove estudantes indígenas que atuam diretamente no projeto. A presença deles é considerada essencial pela mediação linguística e pela construção de uma abordagem que respeite as lógicas próprias das comunidades.

A iniciativa tem parceria com a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), por meio da professora Beatriz Landa, e envolve a pós-doutoranda Marinês Soratto. A metodologia rompe com modelos tradicionais de pesquisa. Não há “coleta de dados”, mas escuta e produção conjunta. A equipe realiza rodas de conversa, acompanha rituais, observa o cotidiano nas aldeias e registra narrativas orais, especialmente dos mais velhos, como lideranças, xamãs e parteiras. “Muitos não falam português. Por isso, é preciso uma escuta sensível, sem impor a lógica acadêmica. A nossa lógica ainda é colonial”, explica.

Território

Um dos eixos centrais do estudo é o conceito de territorialidade. A professora explica que, na pesquisa, o território envolve identidade, memória, espiritualidade e produção de conhecimento, não se limitando à terra física. É nesse espaço que se desenvolvem os chamados “processos próprios de aprendizagem”, que incluem formas de ensinar e aprender que não estão organizadas em disciplinas escolares, mas fazem parte do cotidiano das comunidades.

Entre esses processos estão a convivência com a natureza, a participação em atividades coletivas, a oralidade e a relação espiritual com o ambiente. Diferente da lógica da ciência moderna, esses saberes não separam ser humano e natureza. “A natureza não é algo externo. Ela faz parte da vida, e isso orienta a forma de aprender e produzir conhecimento”, destaca.

Reconhecer saberes

A pesquisa também busca reorganizar e dar visibilidade a conhecimentos historicamente desvalorizados. A ideia não é “resgatar” algo perdido, mas reconhecer como ciência aquilo que já existe nas comunidades. Adir cita como exemplo práticas desenvolvidas por povos originários que influenciam a sociedade atual, como o uso de alimentos domesticados após longos processos de experimentação, como a mandioca. O estudo também questiona conteúdos ensinados nas escolas que ignoram ou distorcem a participação indígena na história, como as narrativas sobre o processo de colonização.

Produção conjunta

Os resultados da pesquisa serão organizados em relatórios e publicações, sempre com participação das comunidades. O material será discutido com os indígenas antes de qualquer divulgação e poderá ter autoria compartilhada. Parte desse conteúdo deve retornar às aldeias como suporte para a educação escolar indígena, contribuindo para a formação de professores e produção de materiais didáticos. “Pode ser o rio, a roça, a conversa, a história dos mais velhos. O ambiente é o material didático”, afirma a professora.

A pesquisa considera ainda os desafios contemporâneos, como a presença de tecnologias digitais nas aldeias e as formas como os próprios indígenas utilizam esses recursos para produzir e compartilhar conhecimento.

Diálogo entre saberes

No centro da proposta está a construção de um diálogo entre diferentes formas de conhecimento, sem hierarquia. A intenção não é substituir a ciência acadêmica, mas ampliar o campo de conhecimento. “É abrir espaço para outras epistemologias e construir uma relação intercultural, sem imposição”, resume Adir.

Sobre o autor: Redação Central

Equipe colaborativa responsável pela elaboração, revisão e organização de textos com foco na qualidade.

Ver todos os posts →