Em Mato Grosso do Sul, quase nove idosos procuram a polícia por dia após cair em golpes. De 1º de janeiro a 21 de junho deste ano, foram 1.520 vítimas de estelionato com 60 anos ou mais, segundo levantamento da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública). A média é de 8,8 casos diários.
Diante do cenário, a Polícia Civil tem usado a campanha Junho Prata para orientar a população sobre as fraudes que mais atingem pessoas idosas e alertar para formas de violência que muitas vezes passam despercebidas. Além dos golpes aplicados por telefone e internet, delegados também chamam atenção para casos de apropriação de aposentadorias, retenção de cartões bancários e empréstimos realizados sem autorização por familiares ou pessoas próximas.
Os números mostram que os idosos continuam entre os principais alvos dos estelionatários. Em 2025, foram 3.649 vítimas nessa faixa etária em Mato Grosso do Sul. Neste ano, mesmo antes do encerramento do primeiro semestre, o Estado já soma mais de 1,5 mil registros.
Nos vídeos divulgados pelo NIC (Núcleo Institucional de Cidadania), delegados de diferentes regiões de Campo Grande reforçam que a violência contra idosos vai muito além das agressões físicas. Titular da 7ª Delegacia de Polícia, Camilo Kettenhuber lembra que os abusos podem ocorrer dentro do próprio ambiente familiar. “As violências não são somente físicas. Elas podem ser morais, psicológicas e financeiras”, explica.
Segundo ele, entre as situações atendidas pela polícia estão apropriação indevida de bens, pressão para assinatura de procurações, maus-tratos e omissão de cuidados básicos. “Às vezes a pessoa deixa de levar o idoso ao médico ou deixa de fornecer alimentação mesmo tendo essa obrigação”, exemplifica.
O delegado Leandro Azevedo, titular da 5ª Delegacia de Polícia, afirma que boa parte das ocorrências registradas envolve pessoas próximas às vítimas. “No nosso dia a dia registramos situações como ameaça, agressão física ou psicológica, abandono, negligência e apropriação de aposentadoria ou de benefícios, além de golpes e fraudes praticados contra idosos”, afirma.
Para ele, um dos desafios é romper a ideia de que esse tipo de situação deve permanecer restrita ao ambiente doméstico. “Violência contra idoso não pode ser tratada como um problema de família apenas. É caso de proteção, de dignidade e, quando houver crime, de polícia.”
A delegada Sueili Araújo Lima Rocha, titular da 3ª Delegacia de Polícia, destaca que muitos idosos sequer percebem que estão sendo vítimas de exploração financeira. Entre os casos relatados por ela estão retenção de cartões bancários, controle indevido de benefícios previdenciários e contratação de empréstimos sem autorização. “Se você está passando por violência física, psicológica, negligência ou abuso financeiro, com retenção do seu cartão de benefícios ou empréstimos feitos sem o seu consentimento, saiba que você não está sozinho”, orienta.
Ela também faz um apelo para que familiares, amigos e vizinhos denunciem situações suspeitas. “O silêncio diante de um abuso também é uma forma de violência.”
O investigador Joel Severino, chefe do SIG (Setor de Investigações Gerais) da 1ª Delegacia de Polícia Civil, explica que um dos golpes mais comuns é o golpe do Pix. Nesse tipo de fraude, criminosos enviam mensagens afirmando que a vítima ganhou um prêmio, recebeu algum benefício ou precisa resolver um suposto problema bancário. A principal estratégia é criar uma sensação de urgência para impedir que a pessoa reflita antes de transferir dinheiro.
“Quem tem pressa geralmente é o criminoso e não a vítima”, alerta o investigador. A orientação é interromper a conversa e confirmar a informação diretamente com a instituição responsável antes de realizar qualquer pagamento.
Outro golpe recorrente é o do falso parente, normalmente praticado por meio do WhatsApp. Segundo Joel Severino, os criminosos se passam por filhos, netos ou outros familiares e iniciam uma conversa alegando ter trocado de número. A recomendação é nunca realizar transferências apenas com base em mensagens e sempre confirmar a identidade do familiar por ligação telefônica ou por meio de outras pessoas da família.
Também está entre os golpes mais comuns a falsa central bancária. Nessa modalidade, criminosos ligam para a vítima fingindo ser funcionários de instituições financeiras. A Polícia Civil reforça que nenhum banco solicita esse tipo de informação por telefone. Se receber uma ligação desse tipo, a recomendação é desligar imediatamente e entrar em contato com a instituição financeira por meio dos canais oficiais.
Os alertas da campanha coincidem com episódios recentes registrados na Capital. Nesta semana, uma aposentada quase perdeu cerca de R$ 40 mil após ser alvo do golpe do bilhete premiado. A fraude só não foi concluída porque funcionários e seguranças perceberam a situação e impediram o prejuízo.
Para a Polícia Civil, informação continua sendo a principal ferramenta para reduzir o número de vítimas. A orientação é desconfiar de pedidos urgentes de dinheiro, nunca compartilhar senhas ou códigos bancários e procurar uma delegacia sempre que houver suspeita de golpe ou qualquer forma de violência contra idosos.
