08/05/2026
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Brazil studies the ecology of disinformation

O ecossistema global de saúde enfrenta desafios que vão além das fronteiras biológicas, entre eles a crise de confiança informacional. O que antes era uma infodemia se consolidou como um fenômeno estrutural e transnacional. Dados do Relatório Edelman Trust Barometer mostram que a confiança na mídia para relatar informações precisas sobre saúde caiu de 57% em 2019 para 46% em 2026. No Brasil, apesar de sinais de recuperação institucional, o cenário segue dividido, com dois em cada três brasileiros sentindo que a nação está fraturada em relação à saúde.

A desinformação não se limita a boatos, mas a alegações controversas que ganham tração em larga escala. Segundo o Edelman, 70% das pessoas globalmente acreditam em ao menos uma de seis grandes fake news sobre saúde, incluindo mitos sobre vacinas infantis e teorias conspiratórias sobre controle populacional. Em um ano, essa onda de incertezas gerou uma queda de 10 pontos percentuais na confiança das pessoas em tomar decisões informadas sobre saúde.

Para entender como esse fenômeno afeta o Sistema Único de Saúde (SUS), o projeto Estudos Comparados sobre a Desinformação em Saúde, coordenado pelo Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde da Universidade de Brasília (ECoS), realizou um estudo com profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) em 10 países em 2025. No Brasil, a pesquisa revela que a desinformação não é apenas um ruído digital, mas uma barreira que compromete processos decisórios e a saúde das comunidades.

A pesquisa já ouviu 1.982 pessoas em 10 países, sendo 1.071 no Brasil e 911 distribuídas entre Angola, Argentina, Cabo Verde, Colômbia, Espanha, México, Moçambique, Peru e Portugal. Em 2026, ainda fará entrevistas no Chile, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Dos entrevistados no Brasil, a maioria é de mulheres (873), com média de idade de 39,5 anos e experiência de 16,4 anos de atuação na APS. As categorias profissionais incluem enfermeiros, agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem e médicos, além de odontólogos, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas, assistentes sociais, psicólogos e outros.

O estudo indica que, embora consultem fontes oficiais, como o Ministério da Saúde (61,7%), outros profissionais ainda recorrem ao Google e a redes sociais para tirar dúvidas. A resiliência brasileira chega a 31% dos que afirmam apagar e alertar quem compartilha informações falsas, uma das maiores posturas ativas registradas.

O estudo mapeou o Risco de Desinformação em uma escala de 0 a 10. A Argentina teve o maior risco médio, especialmente no Facebook e Instagram, com polarização política e desconfiança institucional intensificando a propagação de conteúdos enganosos. A Espanha, apesar dos altos níveis de literacia em saúde, enfrenta risco elevado em temas como vacinação. A Colômbia foi classificada na faixa de alto risco. Brasil e Peru estão em médio risco, que exige vigilância constante. Portugal, México e Angola registraram os menores índices de risco entre os países analisados.

Outra revelação é a percepção da qualidade das fontes oficiais. O Brasil apresentou o maior score de avaliação (média de 4,18), superando o Peru (4,03) e a Espanha (3,89). Isso mostra que os profissionais brasileiros confiam nas informações de órgãos oficiais, embora identifiquem a necessidade de melhorias na navegabilidade e atualização dos portais. Em Angola e Cabo Verde, o enfermeiro e o médico de família prevalecem como fontes primárias, com foco no WhatsApp para comunicação entre equipes. Em Moçambique, o desafio é estrutural, com necessidade de fortalecer a resiliência das infraestruturas de saúde contra eventos climáticos e falta de insumos.

O enfrentamento à desinformação requer o fortalecimento da literacia digital para que o profissional de saúde siga como âncora de confiança da comunidade. Para vencer a narrativa das notícias falsas, orienta-se a capacitação em literacia midiática, o fortalecimento da comunicação territorial que traduza a ciência em linguagem simples e o uso ético da tecnologia, em especial da IA, integrando ferramentas de monitoramento para identificar perfis desinformativos em tempo real. A pesquisa confirma que o sistema de saúde precisa reforçar a segurança de seus ambientes de compartilhamento. A saúde pública no século 21 não se faz apenas com medicamentos, mas com a reconstrução das pontes de confiança entre a ciência e o cidadão. Para tanto, é necessário que o Estado reconheça o ambiente informacional como um determinante social da saúde.

Sobre o autor: Redação Central

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