A defesa de um dos réus do processo Kriva-Rochem, na Bélgica, pediu à Justiça que declare prescrita a ação penal movida pela Procuradoria Federal no caso que apura o envio de 16 toneladas de cocaína à Europa. O pedido pode beneficiar outros acusados do processo, entre eles o brasileiro Sérgio Roberto de Carvalho, o ex-Major Carvalho, conhecido como “Escobar brasileiro”.
O pedido de prescrição foi apresentado em abril pelo advogado do ex-advogado criminalista belga Pol Vandemeulebroucke, acusado de integrar o grupo criminoso e de repassar informações sigilosas do processo a suspeitos.
Segundo a defesa, o chamado “prazo razoável” do processo foi ultrapassado. O advogado também sustenta que as acusações contra Vandemeulebroucke são vagas e não especificam exatamente quais decisões ele teria tomado dentro da suposta organização criminosa.
“Pedimos várias vezes esclarecimentos à Procuradoria, mas meu cliente ainda não sabe exatamente por quais fatos deve responder”, afirmou a defesa durante a audiência, em fala reproduzida em jornal de Bruxelas.
O julgamento do megaprocesso, também chamado de “Samba” pela imprensa internacional, foi retomado em março, depois de vários adiamentos e polêmicas. As audiências foram realizadas a partir de 16 de abril. O caso reúne cerca de 30 acusados de integrar uma organização criminosa ligada ao tráfico internacional de drogas pelos portos de Antuérpia, na Bélgica, e Roterdã, na Holanda.
O processo investiga o envio de 16 toneladas de cocaína para a Bélgica, atribuído a uma rede internacional comandada por Carvalho, com o apoio de Flor Bressers, que seria o braço-direito do brasileiro e também está no banco dos réus. Embora não esteja no alvo do processo, relatórios da Europol indicam que Carvalho e Bressers podem ter conseguido movimentar pelo menos 45 toneladas em apenas seis meses, alcançando cifras próximas de meio bilhão de euros.
O processo vem acumulando atrasos, suspensões e crises internas desde o ano passado. Em uma das decisões, de setembro de 2025, a Corte de Apelação de Gand determinou a substituição dos três juízes responsáveis pelo julgamento após reconhecer risco de parcialidade. A defesa havia apresentado 21 pedidos de suspeição depois que o presidente do tribunal encerrou uma sessão sem permitir manifestações da acusação e dos advogados. A corte entendeu que houve, ao menos para a opinião pública, “impressão objetivamente justificada de parcialidade”.
Advogados chegaram a abandonar audiências em protesto e dois defensores foram retirados da sala pela polícia após confronto verbal com o juiz responsável pelo caso.
O ex-major Carvalho da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul é apontado por investigadores europeus como líder de uma das maiores estruturas de tráfico internacional de cocaína da última década. Carvalho foi expulso da corporação de MS em 2018. Já havia sido condenado no Estado a 15 anos de prisão por tráfico de drogas em 1998 e mais tarde por usar “laranjas” em movimentações milionárias.
Preso em 2022 na Hungria após anos foragido, Carvalho nega participação no esquema. Em junho de 2023, autoridades o extraditaram para a Bélgica sob forte esquema de segurança. Além do processo europeu, ele também enfrenta pedidos de extradição feitos pelo Brasil, pelos Estados Unidos e pela Espanha.
O brasileiro ficou conhecido como “Escobar brasileiro”, alcunha que o desagrada e é alvo de ação na Justiça de Mato Grosso do Sul, para que a imprensa não utilize o apelido, considerado ofensivo e desproporcional. Em tramitação na 11ª Vara Cível, a ação ainda não foi julgada e tem audiência de conciliação prevista para este mês.
